domingo, 13 de junho de 2021

Umbanda cultua Orixá?

 Existem alguns desentendimentos no seio religioso umbandista quando se discute sobre "Culto a Orixás" e este esboço vai ao encontro de levar um pouco de esclarecimentos ao praticante, se na Umbanda se cultua ou não se cultua Orixás.
   Primeiramente, gostaria de expor conceitos sobre o que significa "cultuar":

   "No contexto religioso litúrgico, um culto (do termo latino cultu) constitui um conjunto de atitudes e ritos pelos quais um grupo de fiéis adora ou venera uma divindade."

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 508.

  Existe um termo grego λατρεια (latreuo) que significa ADORAR. É muito utilizado teologicamente, especialmente pelo Catolicismo e Ortodoxia, que é o devido culto somente a Deus.
  Como adendo, gostaria de dizer que também existe outro termo grego que é utilizado teologicamente, que é δουλεια (douleuo) que significa HONRA, que é o que consideramos como veneração aos "Santos".
   Ora, sabemos que a Umbanda é uma religião que reconhece a existência de UM ÚNICO DEUS, que chamamos de Olorum, Zambi ou Olodumare. Mas vale lembrar que o conceito de Deus na Umbanda é Panenteísta.

   "PANENTEÍSMO pode ser entendido como uma forma de "Monoteísmo" combinada com "Panteísmo", afirmando que Deus é o "TUDO" da existência, está inserido na existência, mas NÃO é idêntico a esse "tudo", tem suas próprias essência e pessoa. Logo, Deus é tanto IMANENTE (está na Criação) quanto TRANSCENDENTE (transcende a Criação, tendo sua particularidade, "além" e "maior" que a Criação)."


   Baseando-nos nestes conceitos aqui expostos, concluímos que a Umbanda tem, portanto, seu Culto a Deus. E, uma vez que Deus manifesta-se na Criação através de Seu Espírito, Imanente, que são as Sete Linhas, podemos definir que a Umbanda tem nas Sete Linhas um dos princípios básicos de Culto a Deus.
   Às Sete Linhas são as Irradiações, Energias, Magnetismos, Essências, Fatores, etc, que emanam de Deus e Geram TUDO que existe, sendo a fonte de Suas Divindades, os Orixás.
   Deus, através da sua Manifestação das Sete Linhas, Gera os Sagrados Orixás (Maiores) de Si e estes são, cada qual, uma qualidade de Deus, atrelado a uma Linha Primordial da Umbanda.
   Se a Umbanda tem como base o Culto a Deus e Suas Sete Linhas, então Suas Qualidades, os Sagrados Orixás, são também cultuados.
   Os Orixás Maiores são manifestações do próprio Deus na Criação, são Suas Divindades, cujo alcance é infinito em todos os níveis, dimensões, realidades e faixas vibratórias, atrelados cada um no limite dos seus aspectos, qualidades, essências, atributos e atribuições.
   A partir Deles, toda uma Hierarquização de Tronos, Graus e Degraus passam a ocupar determinadas "abrangências" da existência, onde Seres Ascensionados ocupam tal posição e são assim os "Orixás Intermediários" e "Orixás Intermediadores", em todos os níveis e sub-níveis da Criação.
   Na religião de Umbanda, alguns desses Orixás geram e regem os Poderes e Forças das Linhas de Trabalho, em que espíritos de alta evolução ocupam e manifestam esses poderes e forças, agregando espíritos e fornecendo suas "armas" e são identificados por nomes simbólicos, formando-se assim as Falanges de Trabalho, da Direita e da Esquerda; são nossas Entidades ou Guias.
   Entidades são espíritos desencarnados de ancestrais que podem ser incorporados por médiuns durante os cultos nos terreiros de Umbanda, que cumprem funções ligadas à cura, ao aconselhamento, etc, e são descritas como tipos populares da realidade social brasileira.
   Portanto, a Umbanda crê na existência de uma Fonte Criadora Universal, um Deus Supremo e pratica o culto aos Orixás como manifestações divinas, onde cada Orixá se confunde com um elemento da natureza, do planeta ou da própria personalidade humana.
  A mediunidade é a forma de contato entre o mundo físico e o espiritual, em que há a manifestação das Entidades ou Guias, espíritos em processo de evolução, para exercerem o trabalho espiritual, incorporado em seus médiuns, organizados em Falanges, Agrupamentos, Linhas de Trabalho ou Planos de Evolução.
  Entendidos esses princípios teológicos, podemos considerar que os espíritos trabalhadores da Seara Umbandista devam ser HONRADOS ou VENERADOS, em que se caracteriza o conceito de
δουλεια - douleuo (explicado já neste texto acima).
   Portanto, a UMBANDA CULTUA OS ORIXÁS, mas à sua maneira! Não podemos confundir o quê é cultuar Orixá na Umbanda e o quê é cultuar Orixá no Candomblé.
   O Candomblé tem toda sua própria ritualística, sua Iniciação, suas Obrigações, seus Sacrifícios Sagrados, suas Comidas de Santo, etc, que são tradições milenares herdadas da África e re-implantadas no Brasil na formação dos Cultos de Nação. O Candomblé tem nos ITANS (mitos) as bases de interpretação das caracterizações, definição de enredo, de caminhos dos Orixás, suas histórias, etc.
   A Umbanda tem como fonte, como uma das suas matrizes formadoras, os Orixás do Candomblé e algumas práticas e ritualísticas, mas tem outra interpretação dos Orixás, não inventadas ou mudadas, mas sim re-interpretadas. Não se mudam os Orixás! Seus fundamentos, suas bases, suas comidas, suas quizilas, etc, são RE-INTERPRETADAS na Umbanda!
   Dizer que a Umbanda NÃO CULTUA Orixás É NEGAR suas bases primordiais, seus fundamentos pétreos. Mas não cultuamos como nos Candomblés, isso é fato, por isso a negação dos Candomblecistas em afirmar que não existe culto dessas Divindades na Umbanda.
   Espero que este texto sirva de instrução e esclarecimento. Não é intento criar discórdia ou gerar o ódio entre as religiões, mas cada uma no seu campo teológico.


Pai Juliano de Oxalá

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