sábado, 17 de julho de 2021

"Fim do mundo" e "retorno de Jesus"

   Quase toda sociedade brasileira sabe alguma coisa sobre certas idéias proféticas que são ensinadas na Seara cristã, inclusive grande parte do mundo tem o mesmo conhecimento.

    Sobre isto, uns entendem mais, outros menos, mas podemos perceber que existe propostas dogmáticas de que Jesus retornará à Terra nos "fins dos tempos" e, antes disso, haverá certos sinais (ou profecias" bíblicas). 

    É curioso notar que todas os três maiores conjuntos religiosos do mundo falam sobre isso: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. 

   O Judaísmo prega a vinda (ainda) do seu Messias, que instalará um Estado Judaico poderoso e uma série de eventos ocorrerão, cujo propósito será implantar um "Governo Divino" na Terra, sob o comando Judaico.

   O Islamismo afirma que Jesus voltará e lutará contra o "Anticristo", contra o mal e destruirá o "paganismo", além de que confirmará ao mundo que o Islã é o caminho verdadeiro (condenando inclusive os cristãos que o adoram como Deus). Também, junto a Jesus, aparecerá a figura do que os muçulmanos chamam de Mahdi, o Ímã que estabelecerá o Governo Divino pré-apocalíptico.

    Tratarei, neste texto, somente sobre o Cristianismo, que está praticamente inserido na nossa sociedade, cultura e  inconsciente coletivo brasileiros.

   Talvez, alguns possam indagar o porquê de um Sacerdote de Umbanda estar escrevendo sobre um pouquinho da Escatologia do Cristianismo (mais especificamente), mas o fato é que se trata de um assunto conhecido e comentado na sociedade brasileira (e Ocidental), além de que uma das matrizes da Umbanda é o Catolicismo. Logo, o assunto é pertinente e escrevo sobre uma visão - o Axé Ventania - e creio que possa ser importante para o conhecimento dos praticantes da Umbanda.

    O Cristianismo se fundamenta no retorno de Jesus (dessa vez "glorioso"), através, principalmente, de certas passagens da Bíblia:

   

1° sinal: os cristãos seriam odiados, caçados e mortos. 

(Mateus 24:9)


2° sinal: surgimento de falsos cristos. (Mateus 24:5)


3° sinal: muitas guerras e revoluções. (Mateus 24:6)


4° sinal: fome, pestes, terremotos e tsunamis

(Mateus 24:7; Lucas 21:25)


5° sinal: surgimento de falsos profetas e apostasia mundial gradativa da igreja cristã. 

(Mateus 24:11,12; II Tessalonicenses 2:3)


6° sinal: o Evangelho será pregado a todos os seres humanos do mundo. (Mateus 24:14)


7° sinal: surgimento do Anticristo, o qual será o último sinal que precede a Vinda de Jesus Cristo (que o destruirá pessoalmente).

(2 Tessalonicenses 2:3 e 2:8) 


    Atualmente, vivemos num planeta muito avançado tecnologicamente, com um tremendo grau de globalização, rapidez nas notícias e informações sobre quase tudo, produção de alimentos sem precedentes, dependência vital de eletricidade e da informática, em que não conseguimos imaginar nossas vidas sem internet ou nossos celulares, entre tantas coisas.

   Imagine que há pouco mais de um século, andávamos a cavalo e, hoje, existem sondas em Marte, outras nos limites do Sistema Solar! Podemos saber em tempo real o que está acontecendo do outro lado do planeta! Entre tantas outras coisas...

   Porém, ainda somos seres gananciosos, preconceituosos, destruidores da Natureza. Temos um Modo de Produção que é Capitalista, cujo propósito é aumentar a riqueza, mas sempre de uma minoria em detrimento da maioria explorada. Os objetivos são sempre primariamente econômicos, portanto, ainda há muitos que passam fome, não têm saneamento básico, sofrem horrores com regimes ditatoriais, de limpeza étnica, genocídios, guerras, violência e até (pasmem!) escravidão (de mão de obra e sexual).

   Quando os cristãos analisam os acontecimentos do mundo à luz das passagens bíblicas, é quase inevitável que se concluam que "estamos nos fins dos tempos".

   Ora, se estudarmos a história religiosa cristã, percebemos que "estamos no fim dos tempos" desde os tempos de Jesus. Paulo mesmo acreditava que o "retorno de Jesus" era iminente, que ocorreria ainda durante seu tempo de vida. 

   Como nada ocorreu, a "data" foi cada vez mais sendo "deslocada pra frente". Podemos enumerar diversos anúncios de "fim do mundo" ao longo do tempo: quando ocorreu a peste negra que devastou a Europa; nos tempos das invasões Mongóis com Genghis Khan; na virada no primeiro milênio depois de Cristo (ano 1.000); nas Primeira e Segunda Guerras Mundiais; na Guerra Fria; na ascensão do Comunismo Soviético; etc, etc e mais etc.

   Será que realmente estamos nos "fins dos tempos"? Ou será que se trata de uma ideia perene na nossa sociedade, que está sempre nos lábios de, principalmente, Pastores evangélicos?

   "Os cristãos seriam odiados, caçados e mortos". (Mateus 24:9)

   Os cristãos foram, desde o começo, odiados, caçados, torturados, esnobados, excluídos e mortos. Antes do Império Romano permitir e depois oficializar o Cristianismo, a vida para eles não era fácil. Ocorreram perseguições e verdadeiros massacres, mortes desumanas para com eles ao longo da história. E o tempo passou, os cristãos aumentaram, ganharam poder e passaram eles, depois, a atacar e massacrar os outros grupos. Claro que ocorrem perseguições a cristãos no mundo de hoje, principalmente em países de regime ditatorial ou regimes teocráticos, quando não, por grupos religiosos extremistas, mas são casos  de tratamento mais específico e regional

  "Surgimento de falsos cristos".(Mateus 24:5)

   Bem, desde o princípio do Cristianismo, apareceram homens se dizendo "Messias", mas, obviamente, naquele primeiro momento eram mais ligados ao Judaísmo, tais como: Teudas (44-46), revolucionário da Judéia; Menahem ben Judá, revolucionário participante na revolta contra Agripa II; Simão Bar Kobas (morte: 135 d.C.). Depois, com o crescimento cristão, de temos em tempos, alguém se anunciava ser "Jesus", como por exemplo: Jacobina Mentz Maurer (1841 - 1874), brasileira, declarou-se reencarnação de Cristo; Maria Devi Christos (1960), ucraniana, fundadora da "Grande Irmandade Branca"; Álvaro Inri Cristo Thais (1948), Brasil, se diz a reencarnação de Jesus; Sergey Anatol'yevitch Torop (1961), russo, conhecido como Vissarion, obteve sua primeira revelação de que era Jesus quando ocorreu a dissolução da União Soviética e, desde então, reuniu um grupo de 5.000 a 10.000 discípulos na floresta da Sibéria, onde vivem em aldeias com sua própria infraestrutura e sistemas sociais. 

   Portanto, podemos enunciar que sempre houve alguém se intitulando ser "Jesus" e com tremenda convicção e certeza disso, não se trata de algo de hoje em dia

   "Muitas guerras e revoluções". (Mateus 24:6)

   Difícil definir algum momento na história humana em que não houvessem guerras. Desde a Antiguidade, o que mais sabemos dessa época são as conquistas militares. 

   O Império Romano, que aliás, dominava a Palestina nos tempos de Jesus, sempre fez guerras, antes e depois do nascimento do Cristianismo.

   Na Idade Média, nos tempos Modernos e Contemporâneo, a guerra parece que é uma constante, sempre houve alguma nação guerreando com outra.

   Passamos por 3 grandes Revoluções que mudaram radicalmente as sociedades humanas: Revolução Industrial, Revolução Francesa e Revolução Russa (Socialismo). 

   Devemos lembrar que os maiores conflitos da nossa história poderiam ser consideradas a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que ocorreram do começo a meados do século XX, época muito próxima da atualidade.

    Infelizmente, ainda sofremos com diversos conflitos, golpes, guerrilhas e guerras mundo afora. E sempre há rumores de novas possibilidades de conflitos.

    Concluímos, então, que as guerras sempre foram uma constante na humanidade e, lamentavelmente, ainda ocorrem no presente.

   "Fome, pestes, terremotos e tsunamis" (Mateus 24:7; Lucas 21:25)

   A produção de alimentos nunca alcançou níveis tão altos de produtividade como nos dias atuais. Temos alimento para alimentar o mundo todo! Porém, sabemos que uma quantidade gigantesca de pessoas sofrem de inanição pelo mundo, especialmente na África, uma verdadeira contradição. Na história humana, a fome quase sempre esteve presente em muitas sociedades, com momentos de crise até piores que nos tempos presentes.

   As crises de doenças, pandemias e epidemias, sempre ocorreram, até piores que nos nossos tempos. Como exemplo, temos a Peste Negra, a pandemia mais devastadora registada na história humana, tendo resultado na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Eurásia, atingindo seu pico entre os anos de 1347 e 1351. 

   A Gripe Espanhola, de 1918 até 1920, infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. O número de mortes é estimado entre 17 milhões e 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, considerada uma das epidemias mais mortais da história. 

   Terremotos e tsunamis ocorrem desde os princípios do próprio planeta e não é algo inédito ao homem moderno. Temos diversos exemplos de devastacões devido a terremotos e tsunamis no mundo todo.

   É de conhecimento, por exemplo, o grande Sismo de Lisboa, no ano de 1755, que destruiu quase toda a cidade de Lisboa em Portugal.

   "Surgimento de falsos profetas e apostasia mundial gradativa da igreja cristã" (Mateus 24:11,12; 2 Tessalonicenses 2:3)

   Para não nos alongarmos sobre a questão de "falsos cristos" ou "falsos profetas", mais uma vez devemos lembrar que foram uma constante ao longo da história humana.

   A apostasia (afastamento da fé) realmente é uma característica de algumas nações. Curiosamente, as nações mais apóstatas são aquelas consideradas ricas, com alto nível educacional, científico e tecnológico, em que não se encontram mais as necessidades de se encontrar respostas aos fenômenos da Natureza sob uma ótica religiosa e, na maioria dos casos, sem sentido.

   Atualmente, isso ocorre porque em muitos lugares as leis são laicas e permitem o livre pensamento. Desligar-se da religião ou contestá-la, no passado até bem recente, era uma afronta tão severa que a morte era a punição a "esse crime". 

   Considerando-se que o nível de educação do povo, até pouco tempo atrás, era pífio e que era inaceitável e incompreensível a rebeldia contra a Igreja, é natural que poucos o fizessem. Mas, se imaginarmos que, desde o passado cristão, não houvessem restrições severas de liberdade, provavelmente o fenômeno da apostasia já teria acontecido antes. E temos evidências da apostasia desde a época do Iluminismo, que já faz séculos.

   As pessoas não se tornam apóstatas porque estão se tornando "desumanas" ou "cuspindo na Igreja". O Cristianismo atual pode não estar mais respondendo às necessidades dessas pessoas, que seguem outros princípios morais elevados ou religiões e filosofias diferentes.

   E é interessante que as nações consideradas mais apóstatas são as que possuem as pessoas mais bem educadas, com melhores padrões de vida e com senso de liberdade e respeito maiores do que outras nações "cristãs".

   "O Evangelho será pregado a todos os seres humanos do mundo" (Mateus 24:14)

   É improvável, no mundo de hoje, que alguém nunca tenha ouvido falar no Cristianismo, em Jesus ou no Evangelho. Mesmo os países muçulmanos ou as nações asiáticas sabem sobre a existência disso.

   Nas épocas colonial e neo-colonial, os europeus levaram a palavra do Evangelho para os mais diversos lugares mundo afora. Em alguns, a religião cristã foi imposta e tornou-se "a verdade". Em outros lugares, foi rejeitada, principalmente na Ásia.

   Portanto, muito notório que o Cristianismo já seja conhecido no mundo todo.


   "Surgimento do Anticristo, o qual será o último sinal que precede a Vinda de Jesus Cristo (que o destruirá pessoalmente)"

(2 Tessalonicenses 2:3 e 2:8)


   Façamos uma pergunta a nós mesmos: quantos homens já foram considerados o Anticristo? Concluímos que diversos deles e desde um pouco depois da morte de Jesus. 

   Imperadores como Nero ou Calígola foram considerados pelos cristãos como o Anticristo e que já eram os sinais do retorno de Jesus, mesmo naquela época!

   Podemos inserir uma lista de nomes de figuras históricas como "ganhadores" do título de Anticristo: Napoleão, Hitler, Franklin Roosevelt, Stalin e (até) Bill Gates.

   Portanto, a cada época, um homem acaba apontado como Anticristo, mas a vida prossegue...


   Bem, após analisarmos um pouco a questão do "fim dos tempos", segundo as Escrituras Cristãs e o ponto de vista do Axé Ventania, podemos concluir algumas coisas:

   As guerras, as doenças, os massacres, os fenômenos destrutivos da Natureza, a ascensão ao poder de homens cruéis e sanguinários, entre diversos outros acontecimentos, infelizmente, sempre estiveram presentes ao longo de toda a história humana.

   Mas, uma grande diferença existe entre esses acontecimentos no passado e nos tempos de hoje: a divulgação!

   Sim, se "daqui a pouco" ocorrer um tsunami no Oceano Índico, o mundo todo fica sabendo em minutos. Se um massacre ocorre, o mundo todo é noticiado. Tudo pode ser acessado em tempo real nos nossos dias, diferente do passado, em que as notícias eram mais limitadas à sociedade imediata e chegavam de forma muito mais tardias.

   A impressão que temos é que o número de desastres, crimes, guerras e todo tipo de sortilégio está crescendo. Mas, na verdade, é que recebemos as informações deles, de diversas partes, ao mesmo tempo, dando impressão que só desgraças estão acontecendo (e acontecem).

   Sempre houve tudo isso e em várias partes do mundo ao mesmo tempo, mas ninguém ficava sabendo.

   Enfim, não pretendo desmerecer as profecias de "fim do mundo", tampouco atacar o Cristianismo.

   Minha pretensão aqui é demonstrar que não podemos simplesmente acreditar que um ponto de vista religioso é "correto" e o resto do mundo está errado.

   Acho curioso que nas profecias antigas não hajam menções a destruição por meteoros previstos para nossos tempos, pois esta possibilidade é real (até onde eu saiba).

   Devemos entender que muitas mensagens religiosas são figurativas, limitadas à época de quem escreve, não mensagens a serem entendidas ao pé da letra.

   Realmente, as ações do ser humano podem levar a um apocalipse, talvez essa seja a verdadeira mensagem profética: que seremos destruídos por nós mesmos!


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Orixá IBEJI

    Um dos Orixás mais conhecidos do meio religioso Afro-brasileiro e da Umbanda é IBEJI; ou, como costumam chamá-lo, "Cosme e Damião". Por outro lado, paira muito desconhecimento ou desinformação sobre esse magnífico Orixá, muitas vezes identificado (erroneamente) como o mesmo que Erê. Antes de explicar um pouco sobre Ele (ou "Eles"), vejamos os itans (histórias contadas, mitologia).

   Conta um itan que os Ibejis são "filhos de barriga de Iansã e que foram abandonados nas águas, encontrados por Oxum, quem os criou como se fossem filhos seus" (Tradição Oral).

   Outro itan dos povos yorubas diz que: "Os únicos que conseguiram enganar a morte foram duas crianças, os Ibejis. Diziam que, numa época, Iku (Orixá da Morte) decepava a vida das pessoas de uma aldeia, antes da hora de suas mortes. Para solucionar o problema, buscaram ajuda do Oráculo de Ifá, que invocou os Ibejis. Porém, ninguém levou a sério que duas crianças fosse dar fim na carnificina. Os Ibejis tinham um plano para enganar a Morte. Enquanto um deles tocava tambor, o outro convidava Iku a dançar. Iku se encantou com o cortejo dos gêmeos e começou a dançar freneticamente, o que fez com que se desgastasse demais, à exaustão, enquanto os gêmeos revezavam a dança para poderem descansar. Iku desgastou-se tanto que não podia mais continuar sua matança e acabou indo embora da aldeia, deixando todos em paz. Para agradecer o fim da ameaça da morte, os gêmeos foram presenteados com muitos doces e brinquedos pelos aldeões. Essa tradição trazida pela diáspora africana ainda permanece nos tempos atuais" (Tradição Oral).

   IBEJI, na nação Ketu (ou Vunji, nas nações Angola e Congo), é o Orixá "Criança", Divindade da brincadeira e da alegria, associado à infância. Rege a alegria, a inocência e a ingenuidade. Representa tudo que existe de bom, belo e puro. Está sempre presente nos rituais do Candomblé e da Umbanda, assim como Exú. Ambos, se não forem bem cuidados, podem atrapalhar os trabalhos com as suas confusões, travessuras ou brincadeiras infantis, desvirtuando a concentração dos membros de uma "Casa de Santo".

    IBEJI é associado ao princípio da DUALIDADE, por isso rege o Odu 2 (Ejiokô). O número 2 (dualidade) representa a união, a associação, o princípio dos opostos (dia e noite, encima e embaixo, yin e yang, masculino e feminino, etc), o namoro, o casamento, os casais. Apesar de identificarmos IBEJI como "Gêmeos", trata-se de UM Orixá somente, que é entendido como dois irmãos gêmeos, indissociáveis, duas personas de uma única essência, um único ser. Sim, incompreensível, um Mistério de Deus! Por isso, acabou sincretizado com os Santos Católicos Cosme e Damião, que são gêmeos.

   Na Umbanda (a depender da vertente), é integrado às Linhas: das Mães d'Agua; de Oxum; de Yemanjá; de Oxalá; do Amor na Umbanda Sagrada (Oxum e Oxumarê); ou Linha de Yori* na Umbanda Esotérica.

   Ibeji está ligado à beleza, ao arco-íris, às cores, às agregacões, ao reluzente, à beleza, ao ouro, aos caminhos, ao amor, à maternidade, ao afeto, etc. Também está associado às contradições, mas no sentido de que existem, muitas vezes, "dois lados" de uma história e que devemos entender ambos, para agir com Justiça.

   Segundo todos esses aspectos, podemos entender o sentido do itan que conta como os Ibejis "enganaram a morte". Suas qualidades de alegria, renovação, beleza, movimento (danças) e desapego são tudo aquilo que é oposto à morte, à doença, à maldade, a malícia. Ou seja, uma vida próspera, alegre, com amor, doçura, encanto e "inocência", é uma vida que anda, que evolui, e afasta a "morte", a depressão, a doença, a angústia, o amargo. "Morte" no sentido não só restrito (o fim da vida), mas amplo, pois, pior que a morte física é a morte "do espírito" ou a morte "como pessoa", ter uma vida amarga, sem esperança, sem fé e sem amor.

   O dia 27 de setembro é comemorado em homenagem a Cosme e Damião ou IBEJI. Os devotos têm o costume de fazer caruru (comida típica da tradição afro-brasileira) e dar para as crianças nesse dia, bem como distribuir diversos tipos de doces.

   Filhos de Ibeji são pessoas com temperamento infantil, jovialmente inconsequentes. São brincalhões, sorridentes, irrequietos. Muito dependentes nos relacionamentos amorosos e emocionais, podendo ser obstinados e possessivos. Podem, também, apresentar bruscas variações de temperamento e uma certa tendência a simplificar as coisas.

   IBEJI é constantemente confundido com os ERÊS na Umbanda. Bem, é muito evidente que há uma relação entre eles, talvez por ambos serem crianças e terem os atributos infantis.

   Ibeji é um Orixá, uma Divindade de Deus. Erês são Entidades que se manifestam com o Arquétipo de crianças, representando o Orixá Ibeji na Umbanda. E trabalhando, claro, sob sua regência e também na de outros Orixás.


   

domingo, 27 de junho de 2021

Firmeza de "Contra-Ajé"

    A palavra "Ajé", de origem yorubá,  pode ser traduzida aproximadamente com o significado de "Feitiçaria ou Feitiço". Na prática, é o oposto de "Axé", que pode ser traduzido como "Boas Energias, Fortaleza, Poder, Prosperidade ou Bons Agouros". Uma das finalidades de uma Gira de Umbanda, ou Ato Religioso, é que possamos trazer o Axé dos Orixás e das Entidades, para realização religiosa e magística apropriadas, atingindo assim o bem maior, individual e coletivo.

   Realizar uma firmeza de "Contra-Ajé" significa montar um firmamento, ativá-lo e deixá-lo próximo à porta de entrada de rua de um local. O propósito é, portanto, PROTEGER o Terreiro, o ambiente, a casa, as pessoas, os médiuns e tudo que não deva se "negativar" dentro desse local, sendo que a abrangência de forças dessa firmeza se restringe somente a essa área específica e aos que ali adentrarem ou estiverem.

   Via de regra, qualquer firmeza de proteção firmada na entrada de um ambiente é considerado um "Contra-Ajé".

   Tradicionalmente, o Candomblé e algumas vertentes de Umbanda utilizam como base: ovos, alguidar, dendê e oagi. Mas muitas formas de se montar podem existir, sendo o limite o conhecimento de quem o faz.

   Os "Contra-Ajé" costumam ser feitos com 7 ovos, dispostos dentro de 1 alguidar de barro e regados com dendê e salpicados com oagi, às vezes com um pouco de água.

   A lógica, ou fundamento disso, remete-se mais propriamente aos elementos:


TERRA => Alguidar - Axé Preto

                   Omolu e Linha das Almas

FOGO => Dendê - Axé Vermelho

                 Iansã, principalmente

AR => Oagi - Axés Preto e Branco

            Ogum, principalmente

ÁGUA => Água - Axé Branco

                Oxum, principalmente

OVOS => Na Tradição Yorubá, o ovo representa a vida e a fertilidade, fundamentado em Mãe Oxum, pois o ovo é de onde a vida é concebida, é a representação de uma vida que nasce. Oxum também está ligada às Senhoras Yami-Oxorongá, que são Elementais de polaridade Negativa, alimentando-se da negatividade absorvida no mundo humano, também das Casa de Axé, que no caso é pra proteção. E o ovo, quando manipulado por Exu, afasta fofocas, fuxicos, brigas, discussões, entre outras funções de proteção.

   Portanto, ao firmarmos um "Contra-Ajé", estamos ativando um poder que servirá como uma espécie de "pára-raios" absorvedor da negatividade do ambiente, das pessoas, das "formas-pensamento" e dos procedimentos religiosos e magísticos. 

   Caso o médium tenha conhecimento, poderá firmar seu "Contra-Ajé" com Poderes e Forças mais específicas às finalidades que deseja, conectando-o mais eficientemente as Forças e Poderes do Terreiro e/ou da Gira que será realizada.

   Apenas para elucidar, um "Contra-Ajé" pode ser com 5 ovos, 9 ovos; pode-se combinar o uso de outros pós (por exemplo, ossun ou enxofre); pode-se usar cebola, parafusos, arruda, velas, côco, garra-de-exu, olhos de cabra, etc.

   Mas, Deve-se ter conhecimento e experiência para se utilizar dos benefícios dessa Firmeza, além do típico e básico (Alguidar, ovos, dendê e oagi). 

   Um velho ditado já diz: "Não mexa com aquilo que não sabe e não conhece". Portanto, mais vale uma Firmeza simples, bem feita, montada com conhecimento de causa e ativada com Fé, do que "inventar" algo que não sabe e acabar se prejudicando e aos outros.

domingo, 13 de junho de 2021

Umbanda cultua Orixá?

 Existem alguns desentendimentos no seio religioso umbandista quando se discute sobre "Culto a Orixás" e este esboço vai ao encontro de levar um pouco de esclarecimentos ao praticante, se na Umbanda se cultua ou não se cultua Orixás.
   Primeiramente, gostaria de expor conceitos sobre o que significa "cultuar":

   "No contexto religioso litúrgico, um culto (do termo latino cultu) constitui um conjunto de atitudes e ritos pelos quais um grupo de fiéis adora ou venera uma divindade."

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 508.

  Existe um termo grego λατρεια (latreuo) que significa ADORAR. É muito utilizado teologicamente, especialmente pelo Catolicismo e Ortodoxia, que é o devido culto somente a Deus.
  Como adendo, gostaria de dizer que também existe outro termo grego que é utilizado teologicamente, que é δουλεια (douleuo) que significa HONRA, que é o que consideramos como veneração aos "Santos".
   Ora, sabemos que a Umbanda é uma religião que reconhece a existência de UM ÚNICO DEUS, que chamamos de Olorum, Zambi ou Olodumare. Mas vale lembrar que o conceito de Deus na Umbanda é Panenteísta.

   "PANENTEÍSMO pode ser entendido como uma forma de "Monoteísmo" combinada com "Panteísmo", afirmando que Deus é o "TUDO" da existência, está inserido na existência, mas NÃO é idêntico a esse "tudo", tem suas próprias essência e pessoa. Logo, Deus é tanto IMANENTE (está na Criação) quanto TRANSCENDENTE (transcende a Criação, tendo sua particularidade, "além" e "maior" que a Criação)."


   Baseando-nos nestes conceitos aqui expostos, concluímos que a Umbanda tem, portanto, seu Culto a Deus. E, uma vez que Deus manifesta-se na Criação através de Seu Espírito, Imanente, que são as Sete Linhas, podemos definir que a Umbanda tem nas Sete Linhas um dos princípios básicos de Culto a Deus.
   Às Sete Linhas são as Irradiações, Energias, Magnetismos, Essências, Fatores, etc, que emanam de Deus e Geram TUDO que existe, sendo a fonte de Suas Divindades, os Orixás.
   Deus, através da sua Manifestação das Sete Linhas, Gera os Sagrados Orixás (Maiores) de Si e estes são, cada qual, uma qualidade de Deus, atrelado a uma Linha Primordial da Umbanda.
   Se a Umbanda tem como base o Culto a Deus e Suas Sete Linhas, então Suas Qualidades, os Sagrados Orixás, são também cultuados.
   Os Orixás Maiores são manifestações do próprio Deus na Criação, são Suas Divindades, cujo alcance é infinito em todos os níveis, dimensões, realidades e faixas vibratórias, atrelados cada um no limite dos seus aspectos, qualidades, essências, atributos e atribuições.
   A partir Deles, toda uma Hierarquização de Tronos, Graus e Degraus passam a ocupar determinadas "abrangências" da existência, onde Seres Ascensionados ocupam tal posição e são assim os "Orixás Intermediários" e "Orixás Intermediadores", em todos os níveis e sub-níveis da Criação.
   Na religião de Umbanda, alguns desses Orixás geram e regem os Poderes e Forças das Linhas de Trabalho, em que espíritos de alta evolução ocupam e manifestam esses poderes e forças, agregando espíritos e fornecendo suas "armas" e são identificados por nomes simbólicos, formando-se assim as Falanges de Trabalho, da Direita e da Esquerda; são nossas Entidades ou Guias.
   Entidades são espíritos desencarnados de ancestrais que podem ser incorporados por médiuns durante os cultos nos terreiros de Umbanda, que cumprem funções ligadas à cura, ao aconselhamento, etc, e são descritas como tipos populares da realidade social brasileira.
   Portanto, a Umbanda crê na existência de uma Fonte Criadora Universal, um Deus Supremo e pratica o culto aos Orixás como manifestações divinas, onde cada Orixá se confunde com um elemento da natureza, do planeta ou da própria personalidade humana.
  A mediunidade é a forma de contato entre o mundo físico e o espiritual, em que há a manifestação das Entidades ou Guias, espíritos em processo de evolução, para exercerem o trabalho espiritual, incorporado em seus médiuns, organizados em Falanges, Agrupamentos, Linhas de Trabalho ou Planos de Evolução.
  Entendidos esses princípios teológicos, podemos considerar que os espíritos trabalhadores da Seara Umbandista devam ser HONRADOS ou VENERADOS, em que se caracteriza o conceito de
δουλεια - douleuo (explicado já neste texto acima).
   Portanto, a UMBANDA CULTUA OS ORIXÁS, mas à sua maneira! Não podemos confundir o quê é cultuar Orixá na Umbanda e o quê é cultuar Orixá no Candomblé.
   O Candomblé tem toda sua própria ritualística, sua Iniciação, suas Obrigações, seus Sacrifícios Sagrados, suas Comidas de Santo, etc, que são tradições milenares herdadas da África e re-implantadas no Brasil na formação dos Cultos de Nação. O Candomblé tem nos ITANS (mitos) as bases de interpretação das caracterizações, definição de enredo, de caminhos dos Orixás, suas histórias, etc.
   A Umbanda tem como fonte, como uma das suas matrizes formadoras, os Orixás do Candomblé e algumas práticas e ritualísticas, mas tem outra interpretação dos Orixás, não inventadas ou mudadas, mas sim re-interpretadas. Não se mudam os Orixás! Seus fundamentos, suas bases, suas comidas, suas quizilas, etc, são RE-INTERPRETADAS na Umbanda!
   Dizer que a Umbanda NÃO CULTUA Orixás É NEGAR suas bases primordiais, seus fundamentos pétreos. Mas não cultuamos como nos Candomblés, isso é fato, por isso a negação dos Candomblecistas em afirmar que não existe culto dessas Divindades na Umbanda.
   Espero que este texto sirva de instrução e esclarecimento. Não é intento criar discórdia ou gerar o ódio entre as religiões, mas cada uma no seu campo teológico.


Pai Juliano de Oxalá

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