Primeiramente, saibam os caros leitores que Umbanda não tem como doutrina ou fundamento o uso de sangue animal. Por outro lado, algumas correntes umbandistas, em especial as "Umbandas Traçadas", se utilizam de sacrifício animal.
Quero deixar, neste texto, pequeno esboço do conceito no Candomblé (pedindo licença para falar sobre), cujo uso é legítimo e essencial, deixando para texto vindouro um aprofundamento no que se refere ao "uso do sangue" segundo a Umbanda (vide textos sequenciais no blog).
Todos nós ouvimos falar que o Candomblé faz o uso constante do sangue animal obtido através de sacrifícios em seus trabalhos e oferendas, porém temos o péssimo hábito de criticar a prática sem nos remetermos ao porquê disso.
Originalmente, na África, a caça era um dos meios pela qual as pessoas obtinham sua comida, suas fontes de proteínas, pois não havia açougues, avícolas ou geladeiras; portanto, o homem africano sacrificava o animal e o distribuía entre os membros da aldeia, mas antes serviam aos seus deuses a parte que lhes cabia, como forma de agradecimento ao sustento oferecido pela Natureza.
Em geral, o sacrifício se realizava com a oferta de partes do animal que não seriam utilizadas para a alimentação (via de regra geral), como o sangue; muitas vezes também as patas, as asas, os miúdos, etc. Como essas partes seriam naturalmente dispensadas, sem se agregar qualquer valor religioso, por que não oferecer ao Orixá (Divindade desses povos) que protege e dá vida a todos?
O Judaísmo sempre praticou a oferenda propiciatória, assim como o Hinduísmo e até mesmo o Islamismo, bem como diversas outras religiões no mundo, portanto não se trata de algo exclusivo do povo africano, mas de um conceito religioso de âmbito mundial.
Hoje, não se praticam mais sacrifícios na religião judaica, até onde se saiba, pois o seu Templo em Jerusalém foi destruído em 77 D.C. pelos romanos e esse era o local dos sacrifícios; a partir daí houve a Diáspora Judaica e o desmembramento do Estado de Israel, reconstruído somente no século XX com ajuda da Inglaterra e outras nações ocidentais.
O Islamismo preserva o sacrifício de animais quando da Peregrinação do fiel a Meca (ao menos uma vez na vida) - O Hajj.
No Cristianismo, não há o sacrifício animal, pois seu maior expoente, Jesus, teve o próprio corpo sacrificado em benefícios de todos que abraçassem a cruz expiatória e manchada com sangue humano, segundo a Teologia Cristã.
O Candomblé prática seus sacrifícios até hoje e graças a isso obtém o Axé para seus atos religiosos, portanto não pratica nenhum mal e sim tem seu fundamento na Tradição das nações africanas que lhe deram origem.
Não devemos julgar os atos religiosos de nossos irmãos do Candomblé porque fazem uso de um elemento de grande poder de realização. O Candomblé é uma religião fundamentada no Ejé (sangue animal) e Ewè (folhas), principalmente, e segue uma Tradição que remonta seus 10.000 anos de existência, segundo muitos, logo o uso do Ejé é corretíssimo nessa religião e nós nunca devemos proferir palavras agressivas aos seus adeptos, pois isso demonstra falta de conhecimento, caráter, humildade e, acima de tudo, caracteriza preconceito religioso.
Segundo a Tradição Africana, o mundo foi formado através de três grandes forças, ou podemos dizer, formado por três grandes Axés e são eles as bases de tudo o que existe; a manipulação correta esses Axés é base da magia africana e cada Axé tem sua representação na Natureza, sendo eles:
Axé/Ejé Funfun (Branco)
Axé/Ejé Epô (Vermelho)
Axé/Ejé Dudu (Preto).
Significa que tudo na Criação pertence a um Axé original (ou dois, ou até três, em suas respectivas proporções e predominâncias) que dá as qualidades, essências, naturezas, características, etc a tudo o que existe.
O Ejé (sangue) animal é um tipo de Axé que promove a vida, segundo as tradições africanas; sem ele nada vive, logo tem seus fundamentos e rituais específicos para utilização. Mas não é só o Ejé Animal que é utilizado, outros também são.
Creio que o fato de serem utilizados animais para sacrifícios talvez seja o foco de atenção das pessoas desavisadas. Não podemos correr o risco de cair na hipocrisia de que os candomblecistas são “isso ou aquilo”, pois se devem lembrar que diariamente milhões de frangos são mortos, muitos gados são abatidos, entre diversas espécies animais, apenas para suprir a alimentação humana. E são mortos, muitas vezes, de forma brutal e violenta!
O sacrifício ritualístico é realizado com respeito, com regras, cantos, rezas, e evitando-se ao máximo qualquer tipo de maus tratos. O animal sacrificado, ao contrário do que se pensa, “dormirá” sob influência de rezas e cantos e, em troca de seu “sacrifício”, acredita-se que é recompensado pelas divindades (sua parte espiritual); ainda servirá de alimento para os presentes no ato religioso ou por outros. Literalmente, servirá como comida (maioria dos casos)!
Segue, abaixo, um modelo simplificado de tipos de Axés/Ejés:
* Perdoem-me os irmãos candomblecistas se cometi algum erro na definição; gentileza se comunicar que retificarei.
Bibliografia
OGBEBARA, Awofa. Igbadu: A cabaça da existência, 2006. 2º ed. Rio de Janeiro: Pallas.
SILVA, Vagner Gonçalves. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira, 2005 2º ed. São Paulo: Selo Negro.
CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia, 2002. 9º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
OLIVEIRA, José Henrique Motta de. Das Macumbas à Umbanda: uma análise histórica da construção de uma religião brasileira, 2008. 1º ed. Limeira, SP: Editora do Conhecimento.
RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil, 2004. 8º ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília.
RAMOS, Artur. O Negro Brasileiro, 2001. 5º ed. Rio de Janeiro: Graphia.
ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina, 2006. Rio de Janeiro, Pallas.
REVISTA DAS RELIGIÕES: Coleção Divindades Afro-Brasileiras, volume II. São Paulo, Editora Abril.
PRESTES, Miriam. Umbanda: Crença, Saber e Prática, 2004. 2º ed. Rio de Janeiro, Pallas.
CIDO DE OSÙN EYIN, Pai. Candomblé: a panela do segredo, 2008. São Paulo, Saraiva.
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