terça-feira, 2 de junho de 2020

Umbanda ou "Umbandas"?


 
Durante meus anos de Sacerdócio, aprendi que muitos fiéis ou frequentadores da Umbanda se deparam com algumas diferenças entre os Terreiros, sejam elas  pequenas ou gritantes.
Alguns perguntam o porquê disso, outros já atacam e criticam, simplesmente menosprezando o diferente daquilo que aprenderam ou conheceram.
Só para exemplificar, vejam como um simples detalhe pode gerar diversas conclusões - suponhamos que uma pessoa vá num certo terreiro de Umbanda e se depare com uma vela acesa pra Pai Ogum na cor azul escuro: alguns acharão um absurdo, pois aprenderam que deve ser vermelho; outros acharão interessante e buscarão saber o porquê; outro grupo dirá que é absurdo Umbanda acender vela azul escuro porque é a cor de Ogum no Candomblé; e por aí vai.
Imaginem então, caros leitores, quando mais detalhes são comparados, como formas ritualísticas, fundamentação, pontos cantados, cor de velas, ervas, procedimentos de culto, etc! 
Daí nos perguntamos: Por que os Terreiros são tão diferentes, enquanto outros são mais parecidos? Quem está certo nisso?
Bem, para entendermos tudo isso, devemos compreender como surgiu a Umbanda e quais os processos históricos pelos quais a religião passou. 
E, saibam os leitores, que apesar dessas diferenças de "como fazer", um conjunto básico de litúrgias e de fundamentação existe sim, tais como a Defumação, a Pemba, o ritual do Amaci, as Linhas Espirituais, etc.
Bem, a Umbanda é o resultado de um processo sincrético, um amálgama, bricolagem de quatro pilares religiosos: Catolicismo, Espiritismo, Candomblé e Pajelança.
Conforme as religiões da Jurema e os Cultos de Nação se formaram, em muitos deles baixavam antigos espíritos de Índios, Caboclos e Negros Africanos, que caracterizariam, no futuro, as Linhas de trabalho de Umbanda com suas particularidades. Oficialmente, houve a manifestação do Caboclo das 7 Encruzilhadas no médium Zélio de Morais em 15 de novembro de 1908, data do "nascimento da Umbanda"; caboclo este que passou os detalhes da "nova religião" que se chamaria Umbanda (pesquisem sobre isso).
Com o passar dos anos, a Umbanda de Zélio de Morais germinou em outras Casas, surgidas ao longo das gerações e existentes até hoje.
Porém, outras Casas com fundamentações diferentes também foram surgindo rincões do Brasil afora, sob a luz da Umbanda do Caboclo das 7 Encruzilhadas e influências do Candomblé ou do Omoloko.
Com a massificação religiosa, surgiu a necessidade de se "explicar" a Umbanda e muitos médiuns e sacerdotes, na ausência ou escassez de explicações teológicas umbandistas, buscaram nos Candomblés ou no Espiritismo suas bases teológicas.
Como a Umbanda é por si mesma sincrética e absorvedora de fontes religiosas diversas, até o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, já não se identificavam mais as diversas origens de seus ritos e práticas.
Víamos que um bojo imenso de formas de praticar Umbanda haviam; ou seja, existiam (assim como hoje) diversas "Umbandas" e cada qual se auto afirmando como a "verdadeira". Resumidamente (e, claro, bem grosseiramente), a Umbanda é um corpo religioso em que cada Casa se situa mais perto ou mais longe do Candomblé ou do Espiritismo.
Importante, caros leitores, não é julgar ou atacar o diferente, mas buscar entender qual dessas formas melhor serve para cada um, pois uma Casa pode ser a melhor para algumas pessoas e não representar nada para outras, e vice-versa. Nunca ache que o "diferente" não presta! Pois pode ser o melhor para outros, que acharão que a Umbanda que você goste é que "não preste".
Desde que não se encomendem e aceitem trabalhos de maldade e cobranças de dinheiro, mas se pratique e ensine caridade e princípios éticos e morais de elevação espiritual, baseados nos ensinamentos evangélicos de Jesus e outros Mestres, já teremos muito do que é a Umbanda.
Deixarei aqui nesta apresentação uma breve descrição de algumas "correntes umbandistas", cuja classificação nada mais é do que uma forma didática, afinal não existe uma divisão precisa para essa finalidade. E espero, mais uma vez, ter conseguido levar um pouco de conhecimento a todos!


   Tipos de Umbanda

    
  • Umbanda Tradicional 🡺 Aquela oriunda de Zélio Fernandino de Moraes sob a luz do Caboclo das Sete Encruzilhadas, quando as manifestações mediúnicas de Pretos-Velhos e Caboclos passaram a ser reconhecidas oficialmente como Umbanda. Não usa sangue animal.


  • Umbanda Popular 🡺 Forma de Umbanda praticada pela maior parte dos adeptos da Religião, com base nos ensinamentos da Umbanda Tradicional, porém com sincretismos católicos muito fortes e adaptações diversas segundo a orientação e conhecimento dos dirigentes; não se enquadram aqui as ritualísticas com o uso de sangue animal.


  • Umbanda Traçada 🡺 Pode ser considerada um tipo de Umbanda Popular que contém seus fundamentos arraigados às tradições dos Cultos de Nação e faz uso ritualístico do sangue animal. É comum se encontrar, no mesmo terreiro, dias específicos para Gira de atendimento com entidades de Umbanda e dias para realização do Xirê (culto do Candomblé).


  • Umbanda Omolocô 🡺 Manifestações mediúnicas de espíritos de Umbanda com fundamentos trazidos pelo Tatá Tancredo da Silva Pinto da nação Luanda-Quioco em Angola na década de 1940, porém sem ligação com o Candomblé de Angola e da própria Umbanda Tradicional.


  • Umbanda de Caboclos 🡺 Tipo de Umbanda que tem seus fundamentos principais no forte sincretismo indígena e na manifestação mais arraigada dos Caboclos e os cultos de Jurema (herança da Pajelança).


  • Umbanda Branca 🡺 Derivada principalmente da Umbanda Tradicional e com suas vertentes voltadas ao estudo e práticas do Kardecismo; não se usam geralmente instrumentos musicais e quase nunca se trabalham com Exus e Pombagiras, sendo o maior foco nos Caboclos e Preto-Velhos sob orientação exclusivamente kardecista.


  • Umbanda Esotérica 🡺 Traz em sua bagagem inicial a Umbanda Tradicional de Zélio de Moraes, porém com fundamentos baseados no conhecimento holístico e nos ensinamentos de W. W. da Matta e Silva; tem nos Caboclos, Preto-Velhos e Erês suas entidades de maior força, além de sintetizar e classificar as forças espirituais em Sete Vibrações somente, não necessariamente com Orixás herdados da África (Yori e Yorimá): Oxalá, Oxóssi, Xangô, Ogum, Yori, Yorimá e Yemanjá.


  • Umbanda Iniciática 🡺 Derivada da Umbanda Esotérica e fundamentada nos ensinamentos de Mestre Rivas Neto, com diversos elementos religiosos e filosóficos do Oriente. Segue a classificação das forças espirituais de Matta e Silva em Sete Vibrações e prega que todo conhecimento humano das vertentes religiosas, filosóficas, artísticas e científicas são partes de um todo, que formariam o Aumbhandan, entendido como síntese do Tudo; há entonação de mantras nas suas práticas e aprofundamento no conhecimento holístico e ocultista.

  • Umbanda Sagrada - Segue a Umbanda Tradicional de Zélio de Moraes e os ensinamentos trazidos pela espiritualidade através do Mestre Rubens Saraceni, classificando e explicando os trabalhos espirituais em seus diversos livros através da compreensão dos Mistérios das Sete Linhas de Umbanda, que são: Fé (Oxalá e Oyá), Amor (Oxum e Oxumarê), Conhecimento (Oxóssi e Obá), Justiça (Xangô e Egunitá), Lei (Ogum e Iansã), Evolução (Obaluaê e Nanã) e Geração (Iemanjá e Omulu).





Bibliografia 



PRANDI, Reginaldo. Encantaria Brasileira, 2004. 1º ed. Rio de Janeiro: Pallas.


ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina, 2006. Rio de Janeiro: Pallas.


OLIVEIRA, José Henrique Motta de. Das Macumbas à Umbanda: uma análise histórica da construção de uma religião brasileira, 2008. 1º ed. Limeira, SP: Editora do Conhecimento.


SILVA, Vagner Gonçalves. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira, 2005 2º ed. São Paulo: Selo Negro.


CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia, 2002. 9º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.



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