Não estou afirmando que essa forma de pensar seja "a verdade", pois devemos respeitar outras interpretações. Porém, desde que estas outras formas tenham BOM SENSO, LÓGICA e RAZÃO. Falar por falar não é explicar, deve-se ter coerência.
Antes de tudo, queria deixar bem claro a supostos desavisados, que: Candomblé é Candomblé! Umbanda é Umbanda! Duas religiões, duas formas diferentes de entender o conceito de Orixá. A Umbanda não se curva ao Candomblé, o Candomblé não se curva a Umbanda. Nenhuma é maior, melhor ou superior a outra. Isso quer dizer que quem tem autoridade sobre a Umbanda e pode explicar sobre suas maneiras de 'enxergar' os Orixás são os Umbandistas, não outras Religiões.
Por outro lado, devemos entender que Orixás são Divindades de origem africana (mas não restrita aos povos africanos) e o que Eles são em essência, qualidades e atributos não se muda, e sim são estes aspectos apenas reinterpretados.
Candomblé não é detentor dos Orixás, tampouco a Umbanda! Porém, cada qual no seu espaço.
Etimologicamente, a palavra "Orixá" significa "Dono do Ori" (Senhor da Cabeça) e, talvez, aqui esteja o ponto máximo de convergência do conceito entre as religiões, o ponto maior de concordância, digamos. Se os leitores quiserem entender o que são Orixás, segundo o Candomblé, peço que pesquisem autores que escrevam sobre o assunto, pois não seria conveniente um sacerdote umbandista "definir" Orixás daquela religião, pois poderia cometer erros.
A Umbanda entende que Orixás são Divindades de Deus, Poderes imanentes e Eternos do próprio Criador. Grosseiramente, seriam as Manifestações de Deus em Si e De Si na Criação - "como Deus chega até nós". São inseparáveis em essência do Criador (no Alto Escalão), porém cada Orixá tem sua abrangência, limitada ao seu conceito (o que "Ele é") e infinito em suas qualidades, atributos e atribuições desse conceito.
São Vibrações que se projetam de Deus de forma não antropomórfica, manifestando-se na Natureza e na vida humana. Nas Giras de Umbanda são representados por espíritos de grande evolução ou "seres naturais" dos reinos dos Orixás (haverá explicações sobre isso em postagens posteriores) e que são ligados aos próprios Orixás como "falangeiros", chamando-se a si mesmos como que sendo o próprio Orixá, muitas vezes; e possuem formas Arquetípicas de se apresentarem (com danças, gestos, gritos e energias próprias).
Para que possamos compreender melhor: na nossa realidade, Deus se manifesta pelos Sete Poderes Maiores (que chamamos de Sete Linhas) e, de cada Poder (Linha), "surgem" (são gerados) diversos Orixás. Não importam quantos, pois isso é irrelevante aqui neste texto. Mas, saibam que os Orixás conhecidos na África eram muitos (entre 400 e 600, dependendo do estudioso).
Entre tantos Orixás vindos da África, muitos foram preservados no Candomblé e alguns na Umbanda.
No início da Umbanda (antes e também na época de Zélio de Morais e o Caboclo das Sete Encruzilhada) e algumas décadas depois, foram cultuados poucos Orixás na Umbanda, talvez (penso eu), que fosse para que houvesse melhor compreensão e que Eles fossem incorporados de forma gradual e mais sólida na religião, por questão de facilitação do aprendizado dos médiuns e sacerdotes.
A aceitação de "novos" Orixás engatinhou nos anos 1970, evoluiu nos anos 1980 e se solidificou nos anos 1990 até princípios dos anos 2000, segundo minhas pesquisas.
Desse processo de incorporação de cultos a mais Orixás, houve quem contestasse!
Vários segmentos de Umbanda não aceitaram essa evolução e chamaram isso de "inovação". A crítica fervorosa partiu também dos irmãos do Candomblé, que não aceitavam a incorporação de outros Orixás no culto umbandista, como Oxumarê, Obá, etc. Ouviam-se e ainda se ouvem reclamações do tipo: "Esse Orixá não é da Umbanda"; "Não se cultua Orixá "tal" na Umbanda, se tiver filho Dele, manda procurar o Candomblé"; e assim é ainda.
Segundo o Axé Ventania, cada Orixá se manifesta em uma Linha de Umbanda (ou em duas, com aspectos diferentes) e assim para cada uma delas inúmeros Orixás e Caminhos de Orixás podem ser incorporados. Cada Casa incorpora os seus respectivos Orixás, em números diferentes ou iguais, variando de 7 a 9, 10, 14, etc. Porém algumas questões devem ser levadas em conta:
- A Tradição da Umbanda baseia-se em Sete Linhas, portanto os Orixás cultuados devem "vibrar" o mais intenso possível em afinidade com o Complexo Energético e Religioso da Umbanda e estarem em total correspondências com as suas respectivas Linhas;
- Orixás têm Tradição Milenar enraizada desde a África, referente aos seus cultos. São reinterpretados na Umbanda, não alterados ou descaracterizados. Suas quizilas, suas comidas, suas particularidades mais intrínsecas, não mudam. Por exemplo: Oxóssi tem quizila com mel, isso não muda; comida de Oxalá é canjica, isso não muda; Xangô não cuida de almas no cemitério, isso não muda; e assim vai.
- Umbanda aceita e compreende qualidades de Orixás, mas não individualiza culto como princípio religioso. Por exemplo: Oxaguian e Oxalufan são caminhos dos Orixás Fun-fun (Brancos), existem e se diferenciam, mas na Umbanda todos são "Oxalá".
- Relevância, simplificação e eficácia no agrupamento dos diferentes Oris (cabeças) daqueles que seguem e trabalham na Umbanda, ou seja, trata-se da lógica religiosa na definição de quem cada um é filho. Cada pessoa nasce sob determinadas afinidades, sendo filhos de diversos Orixás, seus "arquétipos" encarnados. Se a Casa cultua 10 Orixás, eles devem abranger essas cabeças, se forem 20, serão mais abrangências, muitas vezes desnecessárias na Umbanda. Por exemplo: há Casas que definem especificamente filhos de Oxóssi, filhos de Ossayn, filhos de Logun-Ede, etc. Porém, numa Casa que só se cultua Oxóssi, todos serão chamados "filhos de Oxóssi", porém não há "defeito", afinal esses Orixás (na Umbanda) vibram fortemente na Linha das Matas, sendo Oxóssi o Orixá mais enraizado e tradicional no culto.
- O princípio que a Tradição Umbandista deixou como legado e regra pétrea, desde a outorga do Caboclo das Sete Encruzilhadas: o culto permanente dos Orixás Oxalá, Oxóssi, Xangô, Oxum, Yemanjá, Ogum e Iansã.
Portanto, mediante esses e outros critérios, cada Casa deve saber sua necessidade, seu entendimento, sua tradição, seu Axé, seu fundamento e seguir o número de Orixás apropriados, com bom senso, lógica e razão. Senão, caímos no axismo e na ignorância, agregando coisas e cultos sem critérios. Não se escolhe Orixás a "deus dará", deve ter fundamento. Uma Casa não nasce do nada, o Sacerdote deve ter sim sua formação pessoal e ser fruto de uma raíz, de um Axé, ainda que tenha suas particularidades.
É importantíssimo estudar, fazer cursos sim, o máximo possível, mas Sacerdotes se formam em "chão de terreiro".
Apenas para finalizar, deixarei aqui os Orixás cultuados no Templo de Umbanda Luz Divina: Oxalá, Oxum, Yemanjá, Oxumarê, Ibeji, Oxóssi, Xangô, Iansã, Obá, Ogum, Omolu (Obaluaiyê)* e Nanã - são 12 Orixás!
Que Oxalá abençoe a todos!
E, assim, a macumba continua...
* Não entendemos Omolu e Obaluaiyê como 2 Orixás independentes e/ou diferentes; mais detalhes serão abordados posteriormente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário