Candomblé Bantu (Angola e Congo)
O Candomblé Banto é aquele originado pelos povos Angola e Congo, que falavam as línguas Quimbundo e Quicongo, conhecido no Brasil apenas como Candomblé Angola. É uma das maiores nações do Candomblé e originalmente cultuava Inquices. Porém, cresceu e foi incorporando elementos de outras nações africanas, em especial os Orixás do Ketu, pois a semelhança entre Inquices e Orixás apresenta-se muito grande.
Os principais rituais da Nação de Angola são:
Massangá: ritual de batismo de água doce (menha), na cabeça (mutue), do iniciado (ndumbi), usando-se ainda o kezu (Obi);
Nkudiá Mutuè: equivalente ao Bori do Ketu, sendo um ritual de colocação de forças na cabeça do filho através do sangue (menga) de pequenos animais;
Nguecè Benguè Kamutué: ritual de raspagem, a Feitura de santo;
Nguecè Kamuxi Muvu: obrigação de 1 ano;
Nguecè Katàtu Muvu: obrigação de 3 anos;
Nguecè Katuno Muvu: obrigação de 5 anos;
Nguecè Kassambá Muvu: obrigação de 7 anos, quando o iniciado receberá seu cargo, passado na vista do público, sendo elevado ao grau de Tata Nkisi (Zelador) ou Mametu Nkisi (Zeladora).
“Candomblé de Caboclo”
Candomblé de Caboclo é todo aquele em que, além do culto aos Orixás, Voduns ou Inquices, cultua também espíritos ameríndios chamados de entidades, catiços ou caboclos e/ou caboclos boiadeiros. Inicialmente na Bahia, os Candomblés não tradicionais eram na maioria Candomblés de Caboclos, um misto de Keto, Jeje e Angola e acrescido de elementos ameríndios.
O caboclo exerce um papel fundamental no relacionamento da comunidade afro brasileira, pois fala o idioma português, "mesmo com erros grotescos", papel que os orixás só fazem no idioma africano, chamado Yoruba ou alguns outros em menor escala.
Por isso, caiu mais fácil no gosto e aceitação popular dos crentes, que não entendem ou falam a língua dos orixás. Os catiços (entidades, espíritos, guias) são encarregados de trazer mensagens dos seus ancestrais, principalmente de entes queridos desencarnados há pouco tempo, pois aconselham os desesperados, indicando sempre um novo caminho, indicando banhos de folha sagrada e pequenas oferendas para resoluções dos seus problemas.
As oferendas de caboclo são fartas e variadas, constituída de uma grande variedade de frutas, legumes, raízes e até mesmo doces. Um elemento indispensável é a abóbora girimum, que se oferece recheada com fumo de rolo e mel de abelha, oferenda de galos, carneiros, peru ou qualquer pássaro. A jurema é a bebida sagrada, considerada o néctar dos deuses e disputada não só pelas entidades, mas por todos os presentes.
Além dos caboclos, incorporam com espíritos que se denominam Exu (masculino) e Pombagira (feminino), mas não é o Exu Orixá do Candomblé, tratam-se tratam de catiços com características próprias de trabalho e de forças espirituais.
Importante salientar aqui que as entidades Caboclos, Boiadeiros, Exus e Pombagiras que trabalham nos Candomblés de Caboclo nada têm a ver com Orixás dos Candomblés Nagôs, são apenas entidades, que futuramente servirão também na Umbanda. Mas claro, além desses grupos espirituais ancestrais, existem os rituais tradicionais dos Candomblés de várias nações, seguidos para a iniciação dos seus membros integrantes.
Tambor de Mina
Tambor de Mina é a denominação mais difundida das religiões Afro-brasileiras no Maranhão e na Amazônia. A palavra tambor deriva da importância do instrumento nos rituais de culto. Mina é termo que vem dos povos Mina de São Jorge da Mina, denominação dada aos escravos procedentes da “costa situada a leste do Castelo de São Jorge da Mina” (Verger, 1987: 12), na atual República do Gana, África.
Foram trazidos da região das hoje Repúblicas do Togo, Benin e da Nigéria, que eram conhecidos principalmente como negros mina-jejes e mina-nagôs.
O Maranhão foi importante núcleo de atração de mão de obra africana, sobretudo durante o último século do tráfico de escravos para o Brasil (1750-1850), e que se concentrou na Capital, no Vale do Itapecuru e na Baixada Maranhense, regiões onde havia grandes plantações de algodão e cana-de-açúcar, que contribuíram para tornar São Luís e Alcântara cidades famosas entre outros aspectos, pela grandiosidade dos sobradões coloniais, construídos com mão de obra escrava e pela harmonia, beleza e coreografia das músicas de origem africana.
Como as demais religiões de origem africana no Brasil, o Tambor de Mina se caracteriza por ser religião iniciática e de transe ou possessão. No Tambor de Mina mais tradicional a iniciação é demorada, não havendo cerimônias públicas de saída, sendo realizada com grande discrição no recinto dos terreiros e poucas pessoas recebem os graus mais elevados ou a iniciação completa.
No Tambor de Mina cerca de noventa por cento dos participantes do culto são do sexo feminino e por isso, alguns falam num matriarcado nesta religião. Os homens desempenham principalmente a função de tocadores de tambores, isto é, abatás, daí a definição abatazeiros, também se encarregam de certas atividades do culto, como matança de animais de 4 patas e do transporte de certas obrigações para o local em que devem ser depositados.
Existem dois modelos principais de Tambor de Mina no Maranhão: mina-jeje e mina-nagô. O primeiro parece ser o mais antigo e se estabeleceu em torno da Casa Grande das Minas Jeje, o Querebentan de Zomadonu, o terreiro mais antigo, que deve ter sido fundado em São Luís na década de 1840. O outro, que lhe é quase contemporâneo e que também se continua até hoje é o da Casa de Nagô, localizada no mesmo bairro, São Pantaleão a uma quadra de distância.
A Casa Grande das Minas é única, não possui casas que lhe sejam filiadas, daí porque nenhuma outra siga completamente seu estilo. Nessa casa os cânticos são em língua Ewe-Fon e só se recebem divindades denominadas de Voduns, mas apesar dela não ter casas filiadas, o modelo do culto do Tambor de Mina é grandemente influenciado pela Casa Grande das Minas.
Nos terreiros de Tambor de Mina é comum a realização de festas e folguedos da cultura popular maranhense que às vezes são solicitadas por entidades espirituais que gostam delas, como a do Festa do Divino Espírito Santo, o Bumba-meu-boi, o Tambor de Crioula e outras. É comum também outros grupos que organizam tais atividades irem dançar nos terreiros de Mina para homenagear o dono da casa, as vodunsis e para pedir proteção às entidades espirituais para suas brincadeiras.
Xangôs
O termo “Xangô” é somente a denominação que se dá aos Candomblés em alguns Estados do Nordeste do Brasil, tais como “Xangô” do Recife, “Xangô” de Pernambuco ou “Nagô Egbá”. Importante não confundir este culto denominado de “Xangô” com o Orixá Xangô! O culto é um amálgama das culturas africanas que acabaram direcionando formas religiosas específicas.
Cabula
Cabula é o nome pelo qual foi chamada, na Bahia, um tipo de Candomblé sincrético que passou a ser conhecida no final do século XIX com o fim da escravidão, com caráter secreto e fundo religioso. É também o nome de um bairro de Salvador que teve origem do Quilombo do Cabula e de um ritmo musical africano no Brasil, toque de percussão religioso de Angola, base rítmica do samba. A Cabula é, para muitos, considerada como uma precursora da Umbanda e ainda persiste como forma de culto nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Batuque
Batuque é como se denomina o Candomblé no estado do Rio Grande do Sul, de onde se estendeu para os países vizinhos tais como Uruguai e Argentina. Batuque é fruto de religiões dos povos da Costa da Guiné e da Nigéria, com as nações Jeje, Ijexá, Nagô e Cabinda.
A estruturação do Batuque no estado do Rio Grande do Sul deu-se no início do século XIX, entre os anos de 1833 e 1859 e, segundo os estudiosos, tudo indica que os primeiros terreiros foram fundados na região de Rio Grande e Pelotas. Têm-se notícias em jornais desta região matérias sobre cultos de origem africana datadas de abril de 1878, (Jornal do Comércio, Pelotas).
Já em Porto Alegre, as notícias relativas ao Batuque datam da segunda metade do século XIX, quando ocorreu a migração de escravos e ex-escravos da região de Pelotas e Rio Grande para Capital.
Os rituais do Batuque falam o idioma Iorubá e seguem fundamentos, principalmente das raízes da nação Ijexá, proveniente da Nigéria e dá lastro com as outras nações como o Jeje do Daomé (hoje Benim), Cabinda (enclave Angolano) e Oyó (região da Nigéria). O Batuque surgiu como diversas religiões afro-brasileiras praticadas no Brasil, tem as suas raízes na África, tendo sido criado e adaptado pelos negros no tempo da escravidão. Um dos principais representantes do Batuque foi o Príncipe Custódio de Xapanã. O nome Batuque era dado pelos brancos, sendo que os negros o chamavam de Pará.
As entidades cultuadas são as mesmas em quase todos terreiros, os assentamentos têm rituais e rezas muito parecidos, as diferenças entre as nações é basicamente em respeito às tradições próprias de cada raiz ancestral, como no preparo de alimentos e oferendas sagradas.
O batuque é uma religião onde se cultuam vários Orixás, oriundos de várias partes da África, porém a Nação Ijexá prevalece. Suas forças estão em parte dentro dos terreiros, onde permanecem seus assentamentos e na maior parte na natureza: rios, lagos, matas, mar, pedreiras, cachoeiras etc. onde também invocam as vibrações dos Orixás.
Todo ser humano nasce sob a influência de um Orixá, e em sua vida terá as vibrações e a proteção deste Orixá que está naturalmente vinculado e rege seu destino, com características individuais, em que o Orixá exige sua dedicação, onde este poderá ser um simples colaborador nos cultos, ou até mesmo se tornar um Babalorixá ou Ialorixás.
O culto no Batuque é feito exclusivamente aos Orixás, sendo o Bará (Exu no sincretismo) o primeiro a ser homenageado antes de qualquer outro e encontra-se seu assentamento em todos os terreiros.
No Rio Grande do Sul a área de conservação das religiões africanas vai de litoral à fronteira do Uruguai, com os dois grandes centros de Pelotas e de Porto Alegre. O estado do Rio Grande do Sul foi o maior responsável pela exportação dos rituais africanos para outros países da América do Sul, entre eles Uruguai e Argentina, que também procuram seguir a maneira de cultuar os Orixás e a construção dos templos seguem exemplos dos seus sacerdotes.
Macumba
A primeira definição de Macumba que se encontra em qualquer dicionário é de: antigo instrumento musical de percussão, espécie de reco-reco, de origem africana, que dá um som de rapa (rascante); e Macumbeiro é o tocador desse instrumento.
O conceito da macumba está tão arraigado na cultura popular brasileira, que são comuns expressões como "xô macumba" e "chuta que é macumba" para demonstrar desagrado com a má sorte. São também muito comuns amuletos que vão desde adereços até objetos que remetem aos utilizados nos cultos religiosos.
Popularmente, a palavra “macumba" é utilizada para designar genericamente os cultos sincréticos afro-brasileiros derivados de práticas religiosas e divindades dos povos africanos trazidos ao Brasil como escravos, tais como os bantos, como o candomblé e a umbanda.
Entretanto, ainda que macumba seja confundida com o candomblé e a umbanda, os praticantes e seguidores dessas religiões recusam o uso da palavra para designá-las.
Macumba, na acepção popular do vocábulo, é mais ligada ao emprego do ebó, feitiço, "despacho", coisa-feita, mironga, mandinga, muamba. Palavra usada no sentido pejorativo para se referir ao candomblé ou à umbanda.
Segundo Câmara Cascuda:
"Ainda ao tempo das reportagens de João do Rio os cultos de origens africanas no Rio de Janeiro chamavam-se, coletivamente, candomblés, como na Bahia, reconhecendo-se, contudo, duas seções principais: os orixás dos cultos nagôs e os alufás dos cultos muçulmanos (malês) trazidos pelos escravos. Mais tarde o termo genérico 'macumba', foi substituído por Umbanda. Meio século após a publicação de 'As Religiões do Rio', estão inteiramente perdidas as tradições malês e em geral os cultos, abertos a todas as influências, se dividem em terreiros (cultos nagôs) e tendas”.
No livro de 1904 ‘As Religiões no Rio’ Paulo Barreto, sob o pseudônimo de João do Rio, escreveu:
“Vivemos na dependência do feitiço, dessa caterva de negros e negras de Babalorixás e iaôs, somos nós que lhes asseguramos a existência, com o carinho de um negociante por uma amante atriz. O feitiço é o nosso vício, mas o nosso gozo, a degeneração. Exigem, damos-lhes; exploram, deixamo-nos explorar e, seja ele maitre-chanteur, assassino, larápio, fica sempre impune e forte pela vida que lhe empresta o nosso dinheiro”.
Macumba era, portanto, definida por toda e qualquer manifestação mediúnica de curandeiros, pais-de-santo, feiticeiros, charlatões, e todos aqueles que se dispunham a intervir junto às forças invisíveis do além apenas em troca de dinheiro e poder.
Bibliografia
OGBEBARA, Awofa. Igbadu: A cabaça da existência, 2006. 2º ed. Rio de Janeiro: Pallas.
SILVA, Vagner Gonçalves. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira, 2005 2º ed. São Paulo: Selo Negro.
CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia, 2002. 9º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
OLIVEIRA, José Henrique Motta de. Das Macumbas à Umbanda: uma análise histórica da construção de uma religião brasileira, 2008. 1º ed. Limeira, SP: Editora do Conhecimento.
RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil, 2004. 8º ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília.
RAMOS, Artur. O Negro Brasileiro, 2001. 5º ed. Rio de Janeiro: Graphia.
ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina, 2006. Rio de Janeiro, Pallas.
REVISTA DAS RELIGIÕES: Coleção Divindades Afro-Brasileiras, volume II. São Paulo, Editora Abril.
PRESTES, Miriam. Umbanda: Crença, Saber e Prática, 2004. 2º ed. Rio de Janeiro, Pallas.
CIDO DE OSÙN EYIN, Pai. Candomblé: a panela do segredo, 2008. São Paulo, Saraiva.
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