sábado, 30 de maio de 2020

Um pouco de história - Formação do povo brasileiro



    A costa do Atlântico, muito antes da chegada das naus portuguesas, sempre foi povoada por povos indígenas que se guerreavam pela obtenção das melhores terras (não pelo modo de produção capitalista). Mas, no fim, os mais bem sucedidos foram os povos de língua tupi que dominaram a costa do atual Brasil até as entranhas do Rio Amazonas.

    Entretanto, nunca se formou nessa região uma "nação indígena" ou um Estado unificado entre os nativos, no máximo o que ocorreu foi o domínio das tribos mais poderosas sob as mais fracas, pois o que havia eram infinitos grupos indígenas, culturalmente distintos e mais hostis uns aos outros do que dóceis. As tribos eram autônomas e auto-sustentáveis, logo quando o número de componentes sociais chegava no limite, elas se separavam, formando novas tribos.

    Os indígenas variavam em muitos aspectos seu modo de vida, formando sistemas socioculturais às vezes bem distintos, mas na sua grande maioria viviam basicamente da pesca, caça e dos frutos da terra, abundantes nas abençoadas terras americanas. 

    Esse foi o cenário encontrado pelo colonizador português Pedro Álvares Cabral e seus comandados no ano de 1500: um monte de índios pelados e portadores de armas, para eles portugueses, rudimentares, tais como lanças, arcos e flechas.

    Darcy Ribeiro, respeitado autor e considerado um dos maiores intelectuais do nosso país, escreveu na sua Obra “O povo brasileiro” o seguinte:


Os grupos indígenas encontrados no litoral pelo português eram principalmente tribos de tronco tupi que, havendo se instalado uns séculos antes, ainda estavam desalojando antigos ocupantes oriundos de outras matrizes culturais. Somavam, talvez, 1 milhão de índios, divididos em dezenas de grupos tribais, cada um deles compreendendo um conglomerado de várias aldeias de trezentos a 2 mil habitantes (Fernandes 1949). Não era pouca gente, porque Portugal àquela época teria a mesma população ou pouco mais”.(Ribeiro2005:31)



Ao tomar posse das terras e fazer contato com os índios do litoral e trocar presentes, voltaram os portugueses à Europa e somente 30 anos depois (1530) resolveram iniciar o processo de colonização para não perder as terras aos outros europeus.

    Quando voltaram, trouxeram animais domesticados, soldados, degredados, padres, alguns nobres. Dividiram as terras que mal conheciam em capitanias, que se subdividiam em sesmarias, e o açúcar foi o produto base da economia colonial.

    Entretanto, as relações econômicas sobrepujaram as sociais e os índios imediatamente foram tratados como seres inferiores e muitos foram usados como escravos nos intentos portugueses e outros levados para Portugal na mesma condição.

 Os índios começaram a ser massacrados - por serem hostis, ou ir de encontro aos interesses lusitanos - ou escravizados devido à necessidade de mão-de-obra, então fugiam para o interior do continente, onde se chocavam com outras tribos hostis, além de sofrerem com as doenças do homem branco às quais não tinham imunidade.       

Segundo Darcy Ribeiro:


“Conforme se vê, a população original do Brasil foi drasticamente reduzida por um genocídio de projeções espantosas, que se deu através da guerra de extermínio, do desgaste no trabalho escravo e da virulência das novas enfermidades que os achacaram. A ele se seguiu um etnocídio igualmente dizimador, que atuou através da desmoralização pela catequese; da pressão dos fazendeiros que iam se apropriando de suas terras; do fracasso de suas próprias tentativas  de encontrar um lugar e um papel no mundo dos ‘brancos’. Ao genocídio e etnocídio se somam guerras de extermínio, autorizadas pela Coroa contra índios considerados hostis, como os do vale do Rio Doce e do Itajaí.(...)Apesar de tudo, espantosamente, sobreviveram algumas tribos indígenas ilhadas na massa crescente da população rural brasileira. Esses são os indivíduos que se integram à sociedade nacional, como parcela remanescente da população original.”(Ribeiro2005:144,145)

 

 

Outro aspecto da colonização foi que os portugueses não traziam mulheres, somente homens sedentos de riquezas fáceis, durante pouco tempo na Colônia, quando retornariam à pátria mãe para, aí sim, constituírem família segundo os moldes da época, o matrimônio católico.

    Mas não foi isso que ocorreu na maioria dos casos, pois a ausência de mulheres européias não impediu os portugueses do desejo sexual e logo apareceram os mamelucos, filhos de pais brancos e mães índias. 

    Segundo Caio Prado Jr, outro exímio intelectual brasileiro:


“Muito importante, contudo, entre os fatores da mestiçagem brasileira, foi o modo com que se processou a emigração portuguesa para a colônia. O colono português emigra para o Brasil, em regra, individualmente (...). Daí a falta de mulheres brancas. Mesmo quando o colono pretende trazer família, ele deixa isso para mais tarde, para quando pisar em terreno firme e já pode prover com segurança à subsistência dela. Na incerteza do desconhecido, ele começa partindo só.”



Os mamelucos aumentaram em números e logo, passaram a constituir um grupo social próprio, contudo rejeitados pelas suas matrizes constituintes, ou seja, eram renegados pelos brancos e pelos índios.

    Os índios de um modo geral se incorporaram ao Brasil biologicamente, espalhando seu DNA entre a população. Contudo, seu modo de vida e sua visão de mundo não influenciaram a fundo o modo de pensar da sociedade brasileira como foi o caso dos negros. 

     O que deles absorvemos foi parte de sua religiosidade, hoje encontrada sob a luz da Jurema, do Catimbó, do Candomblé de Caboclo e da Umbanda, mas ainda assim essa religiosidade foi transfigurada de sua forma original pela influência de outros modos de pensar.

    Com o desenvolvimento da Colônia, fez-se aumentar a carência de mão-de-obra e o custo pela obtenção e manutenção de índios escravizados era muito oneroso, tornando cara a compra deles. As tribos também se refugiavam cada vez mais para dentro do continente, pois conheciam as terras, tornando difícil sua captura, além disso, preferiam morrer a trabalhar. 

Das regiões da Colônia, o Nordeste foi o projeto mais bem sucedido, criando logo a necessidade de mais braços para o trabalho. A solução encontrada pelos portugueses foi trazer os negros africanos como escravos para o Brasil, pois eles eram mais bem adaptados ao trabalho ritmado e Portugal já praticava a escravidão dos africanos antes da descoberta das terras americanas, portanto tinha experiência na obtenção, transporte e venda de africanos. 

    As terras que seriam futuramente o Brasil receberam em seus braços grandes levas de negros africanos e, como não poderia ser diferente, o homem branco juntou-se sexualmente às negras e mais uma vez outro componente social surgiu, o mulato. 

Tínhamos no Brasil, portanto, originalmente o branco colonizador, o negro escravo, o índio nativo, depois o mameluco e o mulato. Surgiu, também, mais um componente social, o cafuzo, resultado da união entre o negro e o índio. No entanto, foi em menor número, pois estes dois grupos – índios e negros - não possuíam a mesma liberdade entre sí para as uniões em relação ao homem branco. 

Através do tempo, enfim, é a miscigenação entre o branco e o negro que predominou, então passaram a constituir os maiores grupos numericamente.

Esses foram, portanto, os componentes básicos da nova nação que surgia no mundo, nas terras portuguesas além-mar, eram os brasileiros. 

    Mais tarde, quando o açúcar perdeu força no mercado mundial, foi a vez do ouro e do diamante na Colônia, principalmente do atual estado de Minas Gerais, quando levas de negros escravos não paravam de chegar ao Brasil, então todos desgarrados da Mãe África nos "tumbeiros" (navios "negreiros") que atravessavam o Atlântico em condições desumanas.

Apesar da forte e marcante presença do mestiço na sociedade, não se identificavam com nenhuma de suas matrizes étnicas originais, pendendo ora ao lado dos brancos quando suas condições de vida eram melhores, ora se identificando com os negros e índios.

    A maioria deles tornou-se criadores de gado, artesãos ou pescadores, colonizando principalmente as terras secas do Nordeste e regiões mais ao atual Centro-Oeste com o gado bovino.

Depois do ciclo econômico do ouro foi o café, que migrou das terras fluminenses para o Vale do Paraíba, depois para São Paulo e daí para o Oeste paulista e Paraná. Foi o negro africano a principal força motriz desse ciclo econômico.

Com o fim da escravidão no final do século XIX, começaram a chegar os imigrantes europeus ao Brasil, em especial os italianos, que vinham para ocupar as vagas dos negros libertos e expulsos das fazendas de café e demais atividades econômicas. Aliás, essa substituição praticamente alicerçou o Brasil como a periferia do capitalismo, promoveu a completa exclusão do negro na sociedade e catalisou o processo de formação de favelas e cortiços urbanos.

A chegada dos imigrantes mudou mais uma vez as características básicas do povo brasileiro. Se antes tínhamos um país cuja população era formada basicamente por pessoas de pele mais escura, a mistura desses elementos mestiços com os europeus, em especial no Sul e Sudeste, “clareou” (digamos, ainda que isso seja de uma imundice dizer) um pouco a “pele dos brasileiros” e confinou o negro ainda mais aos rincões e favelas urbanas, sempre vítima do preconceito racial.

A imigração européia trouxe, claro, muitos elementos que se adicionaram no modo brasileiro de vida, mas não chegou a expressar diferenças culturais relevantes e ao extremo entre os grupos que as absorveram. 

Diferente da Argentina e do Uruguai, que assumiram as características européias dos imigrantes que lá aportaram, no Brasil foi mais o europeu quem se adaptou ao nosso jeito brasileiro de ser.

Mais uma vez, citaremos o autor Darcy Ribeiro para explicar o papel dos imigrantes europeus na sociedade mestiça brasileira:


“Apesar de numericamente pouco ponderável, o papel do imigrante foi muito importante como formadores de centros conglomerados regionais nas áreas sulinas em que mais se concentrou, criando paisagens caracteristicamente européias e populações dominadoramente brancas. Conquanto relevante na constituição racial e cultural dessas áreas, não teve maior relevância na fixação das características da população brasileira e da sua cultura. Quando começou a chegar a maiores contingentes, a população nacional já era tão maciça numericamente e tão definida do ponto de vista étnico, que pôde iniciar a absorção cultural e racial do imigrante sem grandes alterações no conjunto.”


O que mais se verifica no processo de integração estrangeira no Brasil foram as oportunidades de trabalho, delegadas oficialmente pelo próprio Governo e pela sociedade aos brancos, em detrimento dos negros recém-libertos, que foram excluídos socialmente e sobreviveram como puderam, heroicamente, nas periferias urbanas dos centros econômicos, germinando assim as primeiras favelas e malocas.

O Brasil é um país multirracial, um país cuja mestiçagem é vista com bons olhos, cujo preconceito racial até os dias de hoje é muito grande e disfarçado. Infelizmente a pirâmide social segue em muitos aspectos o padrão étnico no Brasil.

Somos filhos de índios, negros, mestiços, portugueses, italianos, japoneses, alemães, árabes e outros mais, conforme podemos verificar na árvore genealógica do nosso povo, mas discriminamos nossos compatriotas pela cor da pele, pelos cabelos encaracolados, ou qualquer diferença fenotípica que vai se distanciando dos traços típicos dos “brancos”.

Termino o assunto com uma célebre frase de Caio Prado Júnior, que pode ser refletida para melhor evolução de cada um contra o preconceito de qualquer natureza:


“Uma gota de sangue branco faz do brasileiro um branco, ao contrário do americano, em que uma gota de sangue negro faz dele um negro.” (Prado Jr. 1997:109)





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