quinta-feira, 28 de maio de 2020

Matrizes da Umbanda - Candomblé Ketu


Quando se fala em Matrizes da Umbanda, não se pressupõe que a Umbanda seja uma continuidade do culto anterior, ou Candomblé, e sim que este foi uma das partes geradoras (além do kardecismo, catolicismo e pajelança) da bricolagem que originou o culto umbandista.

Falamos do Candomblé de Ketu com mais afinco porque foi o culto afro-brasileiro que preservou o conceito de Orixás, sendo (digamos) o culto que conecta o Orixá Africano ao Brasil. Posteriormente, a Umbanda reinterpretou o culto dos Orixás segundo seu processo de formação, porém preservados muitos aspectos dos fundamentos básicos dessa teogonia e práticas ritualísticas.

Candomblé Ketu (pronuncia-se queto) é a maior e a mais popular "nação" do Candomblé, uma das Religiões afro-brasileiras. Suas crenças e rituais são parecidos com os de outras nações do Candomblé em termos gerais, mas diferentes em quase todos os detalhes.

Teve início em Salvador, Bahia, de acordo com as lendas contadas pelos mais velhos. Algumas princesas vindas de Oyó e Ketu na condição de escravas fundaram um terreiro num engenho de cana e, posteriormente, passaram a reunir-se num local denominado Barroquinha, onde fundaram uma comunidade de Jeje-Nagô pretextando a construção e manutenção da primitiva Capela da Confraria de Nossa Senhora da Barroquinha, atual Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha que, segundo historiadores, efetivamente conta com cerca de três séculos de existência.

No Brasil Colônia e, depois, já com o país independente, mas ainda escravista, proliferaram irmandades religiosas. Para cada categoria ocupacional, etnia ou nação existia uma confraria, porque os escravos africanos e seus descendentes procediam de diferentes locais com diferentes culturas. Quase não havia irmandades de mulheres e, elas, nas irmandades dos homens, entraram sempre como dependentes para assegurarem benefícios corporativos advindos com a morte do esposo. Para que uma irmandade funcionasse, segundo ideia do historiador João José Reis, precisava encontrar uma igreja que a acolhesse e ter aprovados os seus estatutos por uma autoridade eclesiástica. Muitas conseguiram construir a sua própria Igreja, como a Igreja do Rosário da Barroquinha, com a qual a Irmandade da Boa Morte manteve estreito contato.

 Segundo o historiador Luiz Cláudio Dias Nascimento, os atos litúrgicos originais da Irmandade de cor da Boa Morte eram realizados na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, templo tradicionalmente frequentado pelas elites locais. Posteriormente as irmãs transferiram-se para a Igreja de Santa Bárbara, da Santa Casa da Misericórdia, onde existem imagens de Nossa Senhora da Glória e da Nossa Senhora da Boa Morte. Desta, mudaram-se para a bela Igreja do Amparo, demolida em 1946 e onde hoje se encontram moradias de classe média. Daí saíram para a Igreja Matriz, sede da freguesia, indo depois para a Igreja da Ajuda. O fato é que não se sabe ao certo precisar a data exata da origem da Irmandade da Boa Morte, talvez em 1820, e sua etnia fundadora também não se sabe.

Essas confrarias eram os locais onde se reuniam as sacerdotisas africanas já libertas (alforriadas) e de várias nações, que foram se separando conforme foram abrindo os terreiros. Na comunidade existente atrás da capela da confraria foi construído o Candomblé da Barroquinha pelas sacerdotisas de Ketu que depois se transferiram para o Engenho Velho, ao passo que algumas sacerdotisas de Jeje deslocaram-se para o Recôncavo Baiano, Cachoeira e São Félix  e transferiram a Irmandade da Boa Morte e fundaram vários terreiros de candomblé jeje sendo o primeiro Kwé Cejá Hundé ou Roça do Ventura.

O Candomblé Ketu ficou concentrado em Salvador, depois da transferência do Candomblé da Barroquinha para o Engenho Velho e passou a se chamar Ilê Axé Iyá Nassô (mais conhecido como Casa Branca do Engenho Velho), sendo a primeira casa da nação Ketu no Brasil de onde saíram as Ialorixás que fundaram o Ilê Axé Opô Afonjá e o Terreiro do Gantois.

Na África, cada Orixá estava ligado originalmente a uma cidade ou a um país inteiro. Tratavam-se de uma série de cultos regionais ou nacionais: Xangô em Oyó; Iemanjá na região de Egbá; Iyewa em Egbado; Ogún em Ekiti e Ondo; Oxum em Ilesa, Osogbo e Ijebu; Erinlé em Ilobu; Logun-Edé em Ilesa; Otin em Inisa; Oxalá em Ifé (subdivididos em Oxalufan em Ifan e Oxaguian em Ejigbo). No Brasil, houve uma “união” de cultos aos Orixás num mesmo terreiro, diferenciando-se basicamente no sentido que nas Casas maiores normalmente há quartos diversos e separado para cada Orixá, e nas Casas menores são cultuados e dispostos em um único quarto de santo ou outro canto em separado.

Não vou adentrar a ritualística do Candomblé de Ketu neste momento, pois não é o foco. Espero ter conseguido transmitir o processo histórico de formação dos primeiros barracões Ketu, cuja importância foi a preservação do culto aos Orixás, que acabariam reinterpretados (e não mudados) na religião de Umbanda.




Bibliografia 



OGBEBARA, Awofa. Igbadu: A cabaça da existência, 2006. 2º ed. Rio de Janeiro: Pallas.


SILVA, Vagner Gonçalves. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira, 2005 2º ed. São Paulo: Selo Negro.


CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia, 2002. 9º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.


OLIVEIRA, José Henrique Motta de. Das Macumbas à Umbanda: uma análise histórica da construção de uma religião brasileira, 2008. 1º ed. Limeira, SP: Editora do Conhecimento.


RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil, 2004. 8º ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília.


RAMOS, Artur. O Negro Brasileiro, 2001. 5º ed. Rio de Janeiro: Graphia.


ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina, 2006. Rio de Janeiro, Pallas.


REVISTA DAS RELIGIÕES: Coleção Divindades Afro-Brasileiras, volume II. São Paulo, Editora Abril.


PRESTES, Miriam. Umbanda: Crença, Saber e Prática, 2004. 2º ed. Rio de Janeiro, Pallas.


CIDO DE OSÙN EYIN, Pai. Candomblé: a panela do segredo, 2008. São Paulo, Saraiva.

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