Quando os portugueses aportaram nas terras da recém-descoberta América, a primeira
providência que se tomou foi a realização de uma missa! E assim se procedia em qualquer lugar
em que os portugueses colocavam seus pés naquelas terras que futuramente formariam o Brasil.
Portugal era um reino extremamente católico, assim como a Espanha, cujas terras eram
onde o poder Eclesiástico Romano tinha mais força e influência, destacando-se principalmente a
influência dos membros da Ordem dos Jesuítas. Onde quer que as caravelas portuguesas fossem,
subiam a bordo os padres jesuítas para levar a pregação do Evangelho e fazer a conversão dos
nativos das longínquas terras do além-mar do Império Português.
Como os negros não eram considerados seres 'portadores de almas', à época do
Descobrimento da América (pelo menos para maior parte do Clero Católico), não houve
influência forte dos Jesuítas na África e toda força religiosa se concentrou nas tribos indígenas
das terras americanas, sejam espanholas ou portuguesas. Os Jesuítas vinham com a intenção de
trazer aos indígenas o espírito de Cristo (segundo o Catolicismo) e fazer com que mudassem suas
vidas para um estilo nos padrões europeus, considerado por eles como civilizado.
A Europa vivia um momento conturbado em que a Reforma Protestante evoluía e se
inseria nos reinos e alugares da Europa, e o Catolicismo, em represália, colocava em prática, de
modo agressivo e como represália, o Tribunal da Inquisição, junto ao incentivo dos Jesuítas na
conquista de novos membros para a Igreja através da conversão na América.
Os Jesuítas adentravam as selvas americanas e procuravam pelas tribos nas
desconhecidas matas brasileiras e o resultado foi uma verdadeira mortandade de padres pelos
indígenas; mas muitos deles obtiveram sucesso e conquistaram a simpatia de diversas tribos tupis
e guaranis dos rincões da América.
Onde os padres conseguiam adesão dos indígenas ao catolicismo, formavam-se
verdadeiros Fortes em que o estilo de vida mudava completamente: os nativos passavam a viver
da agricultura nos padrões europeus, as guerras entre rivais de certo modo cessavam, aprendia-se
o português como língua franca e todos abraçavam o símbolo da Cruz de Cristo.
Em tese, os índios convertidos não poderiam ser escravizados, pois se tornavam cristãos e
civilizados, porém o que mais acontecia era que os Jesuítas de certo modo ‘domesticavam’ os
índios ao modo de vida dos colonizadores e os utilizavam como mão de obra sem remuneração
nas lavouras e trabalhos braçais da Colônia e nos momentos de falta de mão de obra africana,
eram retirados dos fortes e simplesmente transformados em escravos.
Como resultado desse processo, muitas tribos indígenas no Brasil foram
descaracterizadas e mudaram suas tradições tribais, esquecendo-se inclusive de suas próprias
línguas e religiosidade ancestral.
Quando os Jesuítas foram expulsos do Brasil em 1759, por ordem do administrador
português Marquês de Pombal, os índios ficaram à mercê do poderio do Reino Português e
grande parte deles, já sem conseguirem mais voltar ao estilo de vida anterior, foram praticamente
submetidos à escravidão ou dizimados.
Historicamente, o resultado de toda a obra dos Jesuítas de 1500 até 1759 foi conseguir
levar a língua portuguesa para o interior do Brasil, promover a catequização de muitos índios e
colocar os nativos em contato com o homem branco, gerando descendentes mestiços nas terras
brasileiras: os mamelucos (filhos de índias com brancos), uma das matrizes formadoras do povo
brasileiro atual.
Disso resultou certo sincretismo nas populações rurais do Brasil, que praticavam e ainda
praticam um catolicismo muito arraigado com práticas religiosas indígenas. E mais, além do
catolicismo fazer sua vez junto às populações rurais, teve e continua tendo grande influência no
contexto político e social do Brasil.
E não foi somente entre as populações rurais descendentes dos antigos nativos que o
catolicismo se fez forte e presente. Os negros também sofreram muita influência do catolicismo e
reinterpretaram os Santos Católicos como sua Divindades ancestrais africanas, ou seja,
camuflavam o verdadeiro sentido das imagens católicas como fundamentos de seus Orixás e o
mais incrível foi a grande correspondência entre os Santos e os Orixás nos mais diversos lugares
do Brasil.
Muitas Candomblés ainda iniciam seus filhos com obrigações do tipo: assistir a 7 missas,
fazer a Primeira Eucaristia etc. Isso vale também para praticantes de outras denominações
religiosas de matriz Afro, como a própria Umbanda.
Mesmo que a população saiba que o Brasil é um Estado laico, ou seja, não tem nenhuma
religião oficial, o Vaticano e seus Bispos representantes têm grande influência sobre as decisões,tais como o uso da camisinha, o aborto, estupro, código penal e demais campos, sejam essas
influências políticas ou socio-culturais.
Percebe-se presença marcante do Catolicismo na população em relação ao calendário:
quantas datas e festas católicas são dia de feriado oficial no Brasil? São várias datas que marcam
início de períodos, datas de festas ou até de abstinências como na Quaresma. Perceba: quantas
datas de feriado oficial há para os evangélicos? O dia da Bíblia, por exemplo, não é feriado. E
sabe-se muito bem a importância da Bíblia aos evangélicos (e também aos próprios católicos). E
quanto às comemorações da Umbanda, existe algum reconhecimento pelas autoridades para um
segmento religioso tão grande no Brasil? Muito pouco...
Isso acontece em grande parte porque diversos frequentadores e praticantes do
espiritismo Kardecista, do Candomblé e da Umbanda consideram-se 'católicos' e nesta religião
fazem seus batismos, missas pelos mortos, casamentos e festas religiosas. Mesmo que não
acreditem nos seus dogmas, juram que são católicos e consideram o catolicismo a ‘grande
verdade’ e os demais cultos são adendos a ela. Com isso o censo fica distorcido e as religiões
‘menores’ ficam sem representatividade num país multirreligioso como o Brasil. Quando a
imprensa anuncia algumas decisões do Papa no Vaticano, automaticamente as organizações e os
agrupamentos políticos se manifestam em relação a isso, aprovando ou desaprovando a medida.
Problema é o descaso que se percebe da sociedade e dos políticos em relação a outras
denominações religiosas, sejam Kardecista, Candomblecistas, Muçulmanos ou outros, e o
descaso que os próprios praticantes das religiões de matriz Afro fazem de si mesmos, mas isso é
outra história...
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