Quando Portugal resolveu colonizar o Brasil em 1530, não tinha consciência das sequelas que suas políticas expansionistas causariam no futuro e, se tinha alguma, simplesmente ignorava.
O único interesse português na América era obter o maior lucro possível pela exploração das riquezas dessas terras desconhecidas.
Depois de implantada a máquina colonial e a aplicação de sua política econômica na colônia brasileira, Portugal só se preocupava em não deixar que esse complexo econômico parasse, pois se assim fosse, não absorveria os tão cobiçados lucros.
Durante todo o período colonial (e depois o Império fez igual), Portugal buscou de todas as maneiras atender a necessidade de mão-de-obra aos Senhores no Brasil.
Seja na extração do pau-brasil, no Engenho de Açúcar nordestino, na mineração em Minas, Goiás e Mato Grosso, no extrativismo amazônico, nas vacarias do sul e sertão nordestino e, enfim, nas fazendas de café, os índios, os negros e também muitos mulatos sempre foram as “peças” principais, a força motriz - o trabalho humano - geradora de riquezas.
Esses ciclos econômicos sempre foram as únicas preocupações, o foco de atenção, nunca os problemas da sociedade e dos grupos étnicos que a formavam. Até mesmo os brancos eram ignorados quando atritavam frente aos interesses do Governo.
Mas isso, infelizmente, ainda ocorre em nossos dias a vistas claras!
Portugal já praticava o comércio de negros africanos muito antes do descobrimento do Brasil, aproximadamente um século antes, e esse comércio era muito rentável, logo foi extremamente incentivado no Brasil em detrimento dos índios.
A escravidão indígena ficou restrita às áreas economicamente mais pobres, como São Paulo e Amazônia, enquanto nas regiões mais ricas foi a escravidão negra que ganhou terreno na Colônia e se manteve também no Império em proporções assustadoras.
Além do forte interesse português (e depois Imperial) com os lucros da comercialização dos negros, outros fatores podem apontar sobre a preferência pela mão-de-obra negra:
Os nativos conheciam as terras e a chance de fugas era grande;
Os índios não resistiam muito às doenças dos brancos, portanto o investimento do Senhor poderia ir por água abaixo caso seu escravo morresse;
As tribos mais hostis viviam atacando as vilas por vingança e os escravos poderiam se rebelar e se unir aos que atacavam, tornando difícil o controle do Estado;
Os negros que chegavam não conheciam o terreno, falavam várias línguas, eram separados de seus parentes e aliados e colocados na senzala junto com outros negros de grupos étnicos rivais, evitando assim a união entre eles.
Portanto, esses foram os fatores que provocaram a entrada dos milhões de negros no nosso país em contrapartida aos índios, cuja herança foi o extermínio.
Os africanos eram capturados na África, amarrados e jogados dentro dos navios negreiros, também conhecidos como tumbeiros. Ali toda a dignidade humana desaparecia, pois os negros eram tratados como objetos, quase não comiam ou bebiam, eram torturados e acorrentados um do lado do outro, fazendo ali mesmo suas necessidades.
Eles passavam, durante a viagem, por uma humilhação muito grande, cujo objetivo único era destruí-los psicologicamente para que não tivessem força de resistência.
Grande parte deles morria durante a viagem e viravam comida de tubarão, mas os que chegavam vivos eram lavados, alimentados e transportados ao mercado, onde acabavam vendidos e tornavam-se propriedades (sim, propriedades!) dos seus Senhores.
Um ponto de Umbanda retrata bem esse fato histórico:
O navio negreiro
Vem beirando o mar
Trazendo os africanos
Para trabalhar
Ô Sarava!
Ogum de Umbanda
Ele corre sua gira
Em qualquer lugar
Para muitos africanos, a fé nos Orixás, Inquices ou Voduns não foi perdida, mesmo sob as pressão do catolicismo. O ponto mostra que o deslocamento geográfico não era impeditivo para o culto aos Orixás, pois “Ogum corre sua gira em qualquer lugar” e que os negros não estavam abandonados por Deus.
Ao contrário do que muita gente imagina, as relações entre brancos e negros não eram amistosas. Os negros eram maltratados, castigados, queimados e, por qualquer mau humor de seus Senhores, poderiam ser açoitados até os limites da resistência humana.
Em último caso, os negros poderiam ser aleijados, cortados ou mortos, caso isso fosse necessário para conter comportamentos rebeldes ou não condizentes às vontades dominantes.
Nas dependências de seus senhores, eles passavam por um processo de adaptação ao Brasil, aprendiam um pouco do português e tinham que entrar no ritmo de trabalho às quais deveriam realizar.
A alimentação era baseada na farinha de mandioca, aipim, feijões, bananas e outras frutas que houvesse. Às vezes, poderiam comer um pedaço de carne...
Mas os negros também lutaram muito devido às péssimas condições em que estavam submetidos. Muitos se suicidavam, outros morriam de banzo (saudades da terra natal), alguns comiam terra e grande parte deles fugia e formava os Quilombos.
Na condição de escravos, os negros eram totalmente anulados como pessoa e considerados simples peças de trabalho, mas o que o homem branco não esperava era que o negro, bravamente, mantivesse no seu íntimo o amor às suas raízes religiosas.
Mesmo obrigados a aprender o catecismo e aceitar o Catolicismo como religião, os negros não deixaram de praticar seus rituais. Eles dançavam e reverenciavam seus “deuses, mas como disfarce usavam imagens de santos católicos para representá-los, surgindo assim um forte sincretismo religioso.
No tempo da escravidão
Quando o Senhor me batia
Eu gritava por Nossa Senhora
Ai, meu Deus!
Como a pancada doía...
Para os brancos, que não aceitavam a religiosidade africana, considerada fetichista e satânica, as danças não eram vistas como rituais, mas como manifestações folclóricas, maneiras próprias dos escravos venerarem os santos e louvarem ao Deus cristão, por isso eram até toleradas, quando não incentivadas, pois a alegria deles em realizá-las poderia alegrá-los e evitar revoltas nas senzalas.
Entretanto, devido às restrições dos brancos e ao sincretismo religioso, os cultos negros mudaram com o tempo, muitos elementos externos foram introduzidos e alguns outros foram esquecidos com o passar das gerações. Surgem no Brasil, com o passar dos tempos, os Candomblés, identificados como Nações.
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